Nossa história

Da província de Shiga ao Brasil

A trajetória de Yonekichi e Suma Ichida começou com o sonho de cultivar a própria terra e se transformou em uma história de coragem, trabalho, perdas, afeto e continuidade.

Partida16/07/1936
Chegada29/08/1936
Travessia44 dias
Navio Rio de Janeiro Maru em imagem histórica
Rio de Janeiro Maru, o navio que trouxe a família ao Brasil.

Memória preservada

Uma história contada por quem cresceu dentro dela

Esta narrativa foi organizada a partir das lembranças de Shigueco — também conhecida como Eloísa —, segunda filha de Yonekichi e Suma. O relato familiar foi revisado para tornar a leitura mais clara, sem retirar o caráter afetivo das memórias.

Os documentos da imigração confirmam a partida do Japão em 16 de julho de 1936, a chegada ao Brasil em 29 de agosto, o navio Rio de Janeiro Maru, a origem na província de Shiga e o destino inicial na Fazenda Piratininga, pela Estação Plínio Prado.

Sobre os filhosO casal teve dez filhos. Yoshiko e Katsumi faleceram ainda crianças; oito chegaram à vida adulta e formaram os ramos familiares apresentados no site.
01JapãoAntes de 1936

O sonho de uma nova vida

Uma terra para chamar de sua

Yonekichi era o terceiro filho de Yukichi e Nami Ichida. Segundo o relato familiar, naquela época a propriedade da família seria herdada pelo filho mais velho. Yonekichi, porém, sonhava em possuir e cultivar a própria terra.

Ao comunicar que pretendia emigrar para o Brasil, recebeu do pai um pedido inesperado: deveria levar consigo os irmãos mais novos, Torazo e Kyugo. A viagem, portanto, não seria apenas uma decisão pessoal, mas também uma responsabilidade familiar.

Suma, filha de Muichi e Misa Umemoto, embarcou ao lado do marido já grávida de Keitaro. O casal partia sem saber exatamente o que encontraria, mas com a esperança de construir uma vida que no Japão parecia distante.

16 de julho a 29 de agosto de 1936

Quarenta e quatro dias sobre o oceano

A viagem no Rio de Janeiro Maru foi longa e, para Suma, especialmente difícil por causa da gravidez. Entre as lembranças preservadas está uma pequena muda de sisal levada escondida na bagagem — um detalhe simples que revela o desejo de transportar um pouco da vida conhecida para o novo país.

Registro26636Família Ichida
OrigemShigaJapão
DestinoSão PauloFazenda Piratininga
EstaçãoPlínio PradoPrimeiro destino no Brasil

Fonte documental: Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil — registro familiar 26636.

02São Paulo1936–década de 1940

Os primeiros anos

Trabalho, filhos e raízes na terra

Depois do desembarque em Santos, a família seguiu para a Fazenda Piratininga, na região de Cafelândia e Lins. Ali nasceram Keitaro, em 24 de fevereiro de 1937, e Shigueco, em 4 de fevereiro de 1939.

Em 3 de julho de 1941 nasceram as gêmeas Hissako e Yoshiko. Yoshiko faleceu ainda pequena durante um surto de malária. A perda passou a fazer parte de uma vida em que alegria e sofrimento frequentemente caminhavam juntos.

Yonekichi e Suma permaneceram na fazenda até conseguirem o visto permanente. Depois tornaram-se agricultores independentes e trabalharam como meeiros em uma região de cultivo de algodão. Tamio nasceu em 28 de março de 1943, no Bairro Bondade, distrito de Goiambê.

Com o resultado do trabalho, a família comprou uma pequena propriedade. Yonekichi construiu a casa de pau a pique, o fogão a lenha e boa parte do que era necessário para a vida cotidiana. Moriji nasceu em 27 de dezembro de 1944. Foi um período de comunidade, mutirões, escola, roça e aprendizado compartilhado.

Novos caminhos

Do interior paulista às serras do Rio de Janeiro

Uma doença atingiu as plantações de algodão e obrigou muitos agricultores a buscar novas regiões. Yonekichi escolheu o Estado do Rio de Janeiro. A mudança levou três dias e marcou outro grande recomeço.

Em Passa Três, a prioridade continuou sendo a escola. Foi também nessa fase que Katsumi faleceu com apenas um ano e três meses. Yonekichi construiu pessoalmente o pequeno caixão da filha — uma lembrança dolorosa preservada pela família.

Depois vieram a Fazenda Clube Caiçara, em Piraí, onde Kiyoko nasceu em 20 de setembro de 1948; uma passagem por Duque de Caxias; e, finalmente, Petrópolis. Ali nasceu Fumiko, em 9 de outubro de 1950, em um parto assistido pelo próprio pai.

Em Petrópolis e Itaipava, os vínculos com a comunidade brasileira se tornaram mais fortes. Shigueco foi batizada como Eloísa; Hissako recebeu o nome Ângela; e Fumiko, Vera Lúcia. Yonekichi escolheu para si o nome Paulo, enquanto Keitaro passou a ser chamado de Francisco.

03Rio de JaneiroPassa Três · Piraí · Petrópolis
04BrejalFazenda Cafundó

Uma casa e uma comunidade

Onde o trabalho também se tornou legado

O projeto mais duradouro de Yonekichi começou no Brejal, em terras ligadas à Fazenda Cafundó. A área destinada ao plantio era alagada e precisou ser drenada. Não havia casa pronta, e ele próprio projetou a moradia em que a família cresceria.

Enquanto a construção avançava, Suma permaneceu com os filhos em Itaipava, grávida de Paulo César. O menino nasceu em 19 de janeiro de 1953, no Hospital Santa Teresa, em Petrópolis. Foi o décimo filho do casal, o único nascido em hospital e o único que não recebeu um nome japonês.

Ao chegar ao Brejal, Yonekichi descobriu que a escola local estava sem professora havia anos. Mesmo falando português com dificuldade, foi a Petrópolis e conseguiu a nomeação de Cecília de Carvalho, que permaneceria na comunidade até se aposentar.

Na agricultura, experimentou variedades de frutas, verduras e legumes e ensinou moradores a produzir fora da época, aproveitando o clima da região. Para a família, educação e trabalho nunca estiveram separados: cada filho, ao concluir o curso primário, era encaminhado para continuar os estudos e aprender uma profissão.

Continuidade

Uma viagem que nunca terminou

Yonekichi e Suma atravessaram o oceano pensando em construir uma vida e, durante muitos anos, alimentaram o desejo de retornar ao Japão. Quatro décadas depois da imigração, tiveram a oportunidade de rever a terra natal, os irmãos, os primos e os sobrinhos.

Voltaram ao Brasil e viveram seus últimos anos em Petrópolis. Assistiram ao casamento dos oito filhos que chegaram à vida adulta e viram a família crescer em novas gerações.

Tenho muitas saudades e admiração pelo meu pai pela sua garra e coragem de imigrante sem nunca desistir. E sinto saudades e admiração pela minha mãe por ter sido uma mulher corajosa e sempre bem-humorada.
Shigueco “Eloísa” Ichida